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A dor, as perdas, o consolo

Vida pode ser sinônimo de muitas coisas, mas algumas são inevitáveis se você viver algum tempo, se não morrer jovem demais.

A dor é uma dessas parceiras de viagem que se junta a nós nos momentos das perdas, geralmente associadas aos entes queridos, aos familiares, aos que de algum modo representam segurança, afeto ou alegria em nossas trajetórias. Ou daqueles a quem admiramos pelos feitos ou legado à humanidade.

Enfrentar a morte, a doença, o desparecimento de alguém a quem se ama, é uma dessas dolorosas provações da vida. Porém, de alguma delas ninguém escapa, mais cedo ou mais tarde. Oxalá pudéssemos escolher as circunstâncias sob as quais nossos pais, irmãos, cônjuges, amigos, afetos, companheiros de trabalho − quem quer que seja parte da nossa vida em um dado momento − vai morrer, adoecer ou simplesmente se evadir de nossas vidas sem que queiramos ou possamos modificar a história, a sina, o destino, seja qual for o apelido que nos convenha dar ao que sucede ao longo do tempo em nossa existência terrestre.

E assim, vamos vivendo ou assistindo o desenrolar dos acontecimentos que nos afetam, em termos emocionais, físicos, mentais ou espirituais sem que, aparentemente, nós os tenhamos escolhido ou provocado. Não vemos a nossa digital em nenhuma dessas efemérides; nos fenômenos da natureza que assolam ou destroem regiões inteiras, árvores, bens materiais e vidas. Não nos sentimos responsáveis por aquilo que não produzimos ou gestamos, pelo menos, não conscientemente. E sofremos em diversos graus de intensidade a dor da impotência, da fragilidade do ser humano ante certas situações.

Mas temos também as nossas escolhas diante da dor e das perdas naturais da vida. Temos − assim como o camelo no deserto − a nossa corcova de força e de resistência que nos conduzirá em meio à desolação de um cenário devastado e seco.


Podemos encontrar lá no fundo do nosso ser os momentos de alegria e amor compartilhados; os pequenos mimos que demos e recebemos de outras pessoas; as risadas no quarto de infância com os irmãos; os tios bagunceiros que a gente adorava ter por perto; os agrados das avós, os primos da mesma idade, descobrindo os primeiros mistérios da vida, cúmplices das brincadeiras e bobagens que enchiam nossas vidas de alegria, ruido e cor.


E os mundos que o estudo e as leituras nos descortinavam? Aonde iam em nossa memória, em que lugar do cérebro estão estocados? Onde se acessa o nosso icloud espiritual das lembranças felizes, dos afetos compartilhados, das descobertas e das paixões, do leve tremor do mistério divino intuído? Tudo que pode vir em nosso socorro quando a barra pesa e a gente se sente só e desvalida.


Para nos acompanhar na jornada que não sabemos aonde leva e quando acaba, todos, uns mais outros menos, em algum momento precisamos de consolo, e este pode tomar várias formas, desde as religiosas e espirituais – orações, meditação, contemplação da natureza e do mistério divino − até as materiais, das quais muitos se valem: consumo conspícuo; horas comprando inutilidades nos shoppings da vida; fugas pela bebida, fumo, e outras adições, movimento incessante e vida social intensa, ruído permanente no entorno.

Mas, será que podemos simplesmente equilibrar a dor de um acontecimento muito marcante, a perda de alguém muito significativo, o medo do porvir, a escassez de recursos materiais,
uma ansiedade muito forte, a insegurança de um ambiente agressivo e violento?

O que pode nos consolar efetivamente diante de uma quadra dolorosa da vida? Palavras amigas, gestos de carinho, uma pequena lembrança, um riso de criança, quaisquer sinais do universo sempre nos ajudam a prosseguir.

Porém, talvez, andar na direção do dar − em vez de simplesmente receber − um pouco do nosso tempo e atenção a outros; servir desinteressadamente; cuidar de alguém necessitado possam ser formas mais efetivas de consolo para muitos de nós.

Se temos um método de vida, se acreditamos no processo de evolução da humanidade e que fazemos parte dele, teremos saídas conscientes para nos ajudar nesses momentos.

Mas, ainda que todo o estoque de ferramentas ascéticas, de que dispomos, não nos alivie a dor mais intensa em certos momentos, a convicção de que não estamos sós, a certeza de que há quem nos conduza em meio à tribulação, o saber que somos parte de algo maior do que nossa individualidade, pode ajudar nessa passagem, tornar mais leve a carga que levamos aos ombros.

Olhar a flor do maracujá recém-plantado querendo brotar; sentir o perfume da alfazema espalhando-se pelo ar; tocar a folha da camélia exaurida pelas flores que nos concedeu; silenciar diante da linha do horizonte que indica o que nunca alcançaremos, ouvir a suave sinfonia dos pássaros chamando seus parceiros, pode se converter em um consolo imenso para a nossa fragilidade, e está ao nosso alcance e em nossas mãos, aqui e agora.



Dulce Otero

Revista Cafh
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