banalidade

A extrema banalidade do mal…

Muita gente parece se sentir desolada, hoje em dia, com a quantidade de notícias ruins, de manifestações da maldade e de violência extremas de pessoas, aparentemente, iguais a nós mesmos.

Há poucos dias, um vídeo aterrador mostrou um homem, num bairro da zona oeste aqui do Rio de Janeiro, ateando fogo em um morador de rua no lugar em que dormia. A câmera da área registrou que o morador de rua já havia sido atacado outra vez pelo mesmo homem. O último delito foi realizado tão sem-cerimônia que nos faz imaginar que, para ele, aquele gesto era como descartar lixo na rua! inacreditável.

Então, vocês dirão que é recorrente casos de gente ateando fogo em morador de rua e fazendo maldades com animais, prendendo fogo no mato etc.. Sim, mas eram raros, espaçados e chocavam! Agora, parece que olhamos como se fosse algo cotidiano e menos aterrorizante. Como se queimar florestas, poluir rios com mercúrio; incendiar morros inteiros, machucando e matando animais que não têm como escapar nem proteger as patinhas do calor da terra, tudo isso fosse algo passível de indiferença…afinal, em meio a tantas guerras: crianças, velhos, civis sucumbindo às balas, drones, foguetes…

Confesso que o grau de patologia social me assusta e muito!

As parcelas menos afortunadas da sociedade vão ficando cada vez mais afastadas de nós, os humanos “normais”, como se viver com decência – ter casa, comida, condições de higiene pessoal e acesso à educação, ao lazer e à cultura – fossem privilégios como os dos nobres no “ancien régime”, nas cortes europeias ou nas castas poderosas dos países orientais teocráticos e segregadores.

O final da 2ª guerra mundial viu o mundo se mobilizar para a criação de organizações internacionais que pudessem prevenir ou evitar novas destruições em massa, que pudessem contribuir para a expansão da consciência da humanidade em refrear o mal, a injustiça, o abuso contra o mais fraco. A criação de ONU; a declaração dos direitos humanos; os vários órgãos supranacionais em busca de parâmetros comuns de saúde, educação, produção de alimentos e outros, como a proteção à infância e à adolescência, pareciam indicar que um novo mundo estaria em gestação. Um novo século em que teríamos como objetivos respeitar as diferenças entre os países; valorizar a diversidade étnica, cultural, espiritual e buscar uma integração dos povos e pessoas através do esporte, da música, da cultura e do avanço da ética em todas as frentes, seja nas profissões, seja nas atividades sociais e políticas.

Mas, buscamos, de verdade?

O sonho de união e harmonia se esfumou no ar. A velha ganância, os imperativos econômicos de riqueza e poder, a ambição desmedida e a capacidade de impor pela força o que uma minoria quer reter como privilégio, falaram mais alto que o desejo de uma vida em paz e digna para todos os seres humanos em qualquer latitude.

E hoje, em pleno século XXI, chegamos ao cúmulo do horror e desatino social quando vemos milhões de pessoas precisando sair do seu torrão natal e buscar, em condições degradadas, um local para viver, apenas “um pedaço de chão pra poder descansar”, como já foi cantado em prosa e verso.

Como é possível que nos acostumemos com as imagens de barcos atulhados de pessoas sacudindo nas ondas sem nenhuma proteção, simplesmente, para poderem exercer o seu direito de sobreviver, de existir, de se fixar sobre a TERRA? E de atravessadores, mercadores de pessoas, traficantes de gentes se movimentando com toda naturalidade e faturando bilhões com a desgraça alheia?

Ah, sempre houve a escravidão: era o modo de produção da antiguidade, e o feudalismo que o sucedeu não foi tão melhor: os senhores das terras podiam avançar sobre qualquer coisa ou pessoa que estivesse dentro de suas propriedades.

Mas, isso foi há séculos. E as revoluções não foram feitas para mudar essa realidade? A revolução francesa, a revolução inglesa, a revolução americana, as guerras de secessão, as guerras de independência não buscaram a mudança do status quo? E o progresso econômico, as revoluções industriais, as descobertas da ciência, o avanço da tecnologia não buscaram melhorar a vida das pessoas?

Claro que houve um progresso, imenso até em certos setores da vida e do conhecimento humano, uma disponibilidade de conforto e segurança para as sociedades nunca dantes desfrutada e uma rapidez na difusão do avanço tecnológico e na ciência – especialmente na medicina – que fez com que o tempo médio de vida fosse catapultado de 30 para impressionantes 75/80 anos já nesta segunda década do século XXI.

A comunicação imediata pelos novos meios tecnológicos quase universalizada; o celular chegando até as sociedades mais pobres e afastadas geograficamente dos grandes centros urbanos, trouxe possibilidades inusitadas para segmentos até então fora da roda do progresso.

Mas é fato que nem todos desfrutam desses avanços e do progresso socioeconômico do último século, ao contrário, índices aceitos internacionalmente mostram que a desigualdade tem crescido de forma galopante em várias regiões do mundo inclusive em nosso país e em outros, ditos países ricos. O capitalismo financeiro monopolista se transfigurou em um monstro faminto também supranacional que sai devastando tudo e todos, até as entranhas da terra na sua autofagia extrativista de minérios e recursos naturais. Ninguém escapa impune à concentração de poder e riqueza em tão poucos e a ânsia de lucro que destrói qualquer barreira a sua volta: a fome grassa, a violência impera, a injustiça corrói a alma das pessoas; crianças e mulheres (e até bebês!!!) são agredidas e violentadas a cada minuto, idosos abandonados pelas ruas, pessoas descapacitadas jogadas ao léu. E agem, assim, também com o meio ambiente que fica deteriorado, exaurido, esgotado pelo exagero do consumismo.

Parece que pouco mudou para a grande maioria da população mundial, que somente tem o direito de poder postar a própria miséria “real time, on line” nas redes sociais com direito a photoshop.

Então, o que o mal tem a ver com tudo isso? Não faz parte da História da humanidade, não é inerente aos ser humano? Não passa por todos os genocídios, pelo holocausto? Pelas torturas e maus tratos nos hospícios, nos asilos, nos orfanatos, nas prisões? Na Santa Inquisição, nas caças às bruxas e aos rebeldes de todos os tempos?

Essa mesma humanidade conseguiu e vem tentando, aos trancos e barrancos, superar todo esse horror que a acompanha; caminhou, às vezes, bem longe e com rapidez; melhorou durante alguns períodos de paz, teve ganhos qualitativos com certas descobertas científicas.

Entretanto, a extrema banalidade do mal a que me refiro tem a ver com a indiferença, a falta de empatia, o “tédio” que as cenas de brutalidade, violência, agressão, degradação moral e social provocam, de tão vulgarizadas. Ligar uma tevê ou abrir o celular e se deparar com um circo de horrores é o esperado, é o novo “normal”.

Uma sucessão de tapas na nossa cara, de afrontas morais e éticas, de um cinismo tão avassalador por parte dos que teriam a função de proteger e servir à sociedade, que perdemos a reação ou nos recolhemos para manter a sanidade!

E nos refugiamos, os que temos essa possibilidade e privilégio, na nossa meditação, em orações, em grupos de estudo ou de apoio, nas nossas famílias e nos afetos que nos dão razão para sorrir e confiar. Às vezes, a tentação da saída é pela alienação…

Não conseguimos nem mais chorar pelas dores alheias, nem nos comover com o desamparo e a injustiça flagrantes porque não sobra tempo – em meio a um terremoto de informações sobrepostas – para que nossa mente e coração digiram uma informação e possam sentir a reação natural orgânica esperada.

A patologia social, a anomia profunda em partes da nossa sociedade faz com que nossos limites de condescendência para o horror estejam sendo constantemente alargados. E assim, vamos deixando passar os crimes, os males, as calúnias, a mentira, as agressões, a grosseria, a vulgaridade da linguagem, a obscenidade até das autoridades, a estupidez e a desfaçatez. E vamos alimentando as estruturas autoritárias, as hierarquias fechadas em torno da obediência cega, justo as que moldam as mentes para não ter raciocínio crítico. É nesse ambiente que o mal viceja como dizia Hannah Arendt, no seu estudo sobre a” banalidade do mal”, expressão cunhada por ela em célebre livro que trata do holocausto dos judeus pelos nazistas na 2a guerra mundial, de 1939-1944, e que causou celeuma durante o famoso Julgamento de Nuremberg.

E, se quisermos ir mais longe, deixamo-nos afundar no lamacento terreno da cegueira coletiva, da ignorância distraída pelos pequenos prazeres, pelo streaming, pela música alta e por todos os ruídos e práticas que nos embriagam para não ter que raciocinar, discernir e avaliar – enfim, tudo o que dá trabalho.

Não podemos simplesmente silenciar, aceitar como dado, o nível cada vez mais baixo e pior das relações quer seja entre nós, quer seja daqueles que ocupam cargos públicos, ou relevantes nas instituições, nas empresas, nos governos.
Dar-se conta do mal, acordar para os sinais ostensivos que têm sido dados da inconsciência reinante, é tarefa diária de cada um de nós onde quer que estejamos e atuemos.

Se queremos realmente ajudar a diminuir a dor reinante, precisamos estar atentos, para equilibrar o mal com o bem, com o amor que vem da expansão da consciência. Esta é a trilha percorrida por todos que nos baseamos na ideia da renúncia.


Dulce Otero

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