“Voar eu não vou nunca mais”.
(Buzz Lightyear em Toy Story)
O verso acima faz parte de uma canção entoada por uma personagem do filme Toy Story, o patrulheiro espacial Buzz Lightyear, que acreditava ser um astronauta de verdade porque voava “ao infinito e além”, defendendo a galáxia de Zorg, um agente do mal.
A cena ontológica do filme ocorre no momento em que essa personagem se dá conta de que na verdade é um brinquedo, isso acontece quando Buzz passa em frente a TV e assiste, de relance, a um comercial do brinquedo Buzz Lightyear. É nesse instante que ele se vê tal como é: um brinquedo. Em outros momentos, Wood, outra personagem-brinquedo do filme, já o alertara, dizendo-lhe que ele era apenas um brinquedo, mas Buzz sempre encontrava um jeito de provar que não era um brinquedo.
Ver-se como realmente era, produziu um grande sofrimento em Buzz porque essa ilusão o envaidecia, o destacava dos demais brinquedos, lhe proporcionava elogios, causava inveja nos outros. Era muito bom viver nessa ilusão, estar “desacordado”, “inconsciente” da realidade.
Às vezes, agimos como Buzz, pensamos que somos o que verdadeiramente não somos. Dependendo do grau de ilusão em que nos enredamos, despertar desse momento pode causar uma dor intensa porque vamos desconstruir uma parte de nós mesmos. Vamos “quebrar nossa personalidade corrente”, o que aprendemos a ser e agir, de acordo com os princípios e valores dos grupos sociais em que participamos.
Como entrar nesse processo de autoconhecimento e não se sentir destroçado no fim dessa vivência?
Uma das ferramentas que podemos lançar mão é a meditação.
A meditação é um ato de honestidade com nós mesmos. Serve como espelho e lâmpada. É espelho, quando nos possibilita visualizar e reconhecer os aspectos mutáveis de nós mesmos e, é lâmpada, quando nos maravilhamos mentalmente com o que podemos ser, sentir e agir. Na prática da meditação, sentimos o incômodo de vermos como verdadeiramente somos, aborrecemos essa imagem e tudo que ela provoca ao seu redor e nos propomos a pensar, falar e agir diferente.
Não vamos conseguir mudar de uma vez o que foi cultivado por muito tempo. A persistência na prática da meditação vai ampliar essa vontade de re-desenhar-se a si mesmo, e é a força de que precisamos para romper as paredes da ilusão e seguir na jornada da vida, conscientes de que é possível ser melhor e conviver mais harmonicamente com tudo e com todos.
Jeanne Amália



