Cristina Woolf de Oliveira
GERMES DE FUTURO NO HOMEM é um pequeno grande livro, escrito por Ramón Pascual Muñoz Soler, em que o autor nos ensina a caminhar, de maneira bastante objetiva e explicativa, rumo a uma individualidade expansiva e participante. A título de conhecimento e informação, destacamos a seguir alguns
trechos mais significativos da obra.
“Com os grandes mestres da ciência, surgem em nossa época os grandes mensageiros do coração. Se os primeiros transcenderam os marcos conhecidos da mente racional e revelaram as maravilhas de um universo apenas concebido pelos homens do século passado, os segundos transcenderam os limites do mundo restrito em que habitualmente se movem os sentimentos humanos, e mostraram as extraordinárias possibilidades do coração. Seu poder de amor inspira os movimentos generosos de ajuda à humanidade, de melhores relações entre os homens e de aperfeiçoamento espiritual.
Todos esses mestres não pertencem propriamente a determinada raça, nação, crença, religião ou grupo humano em particular. Eles são universais e ajudam os outros seres a pensar, sentir e atuar em termos universais.”
“É em relação ao tempo interior que se diferencia uma geração de outra, e não em relação aos costumes, ideias, crenças, Cristina Woolf de Oliveira Ramon Pascual Muñoz Soler: o Sr. Egoência
formas sociais ou outros aspectos da vida exterior. Se há algo de fundamental a perceber em nosso mundo de hoje é que o relógio cósmico marca uma determinada hora, e o homem moderno busca ansiosamente regular e harmonizar seu tempo interior com o tempo que rege hoje o universo.”
“Os marcos convencionais de espaço-tempo já não são mais os mesmos atualmente; o homem tem necessidade de uma nova Vida, com acesso a uma nova dimensão de ser.
Ainda que muitos homens não percebam claramente as mudanças fundamentais que já ocorreram no mundo, sentem, no entanto, uma necessidade imperiosa de revisão de conceitos, doutrinas e formas de vida que harmonizem sua vida individual com a realidade do universo em que vivem.”
“O individuo que sofreu as enormes pressões de um ciclo histórico de predomínio de coletividades, se recolhe, se volta para o seu próprio centro, desloca suas energias para o núcleo mais intimo de seu ser, com a probabilidade de sair de sua prisão material e ganhar sua expansão anímica, sua liberdade interior e seu direito de participar ativamente na vida do universo.”
“A este novo estado de consciência individual expansiva e participante caracterizamos como egoência do ser. A manifestação ativa dessa egoência é a necessidade de ser livre. No entanto, não se deve confundir a liberdade exterior, a liberdade instintiva, as evasões ou as utopias de liberdade absoluta com a liberdade interior ou a liberdade espiritual, que é o domínio sobre as escravidões, alcançado através do conhecimento dos próprios limites e da obediência às leis do desenvolvimento da vida individual e social.”
“As filosofias do passado se caracterizavam, em suas construções sistemáticas, por estabelecer, de forma explícita ou implícita, formulações duais e contraditórias acerca do homem, do universo e da vida.”
“Apesar de que a dualidade e a parcialidade tenham sido úteis para fins do conhecimento, em uma época de desenvolvimento da civilização, hoje em dia, tal dualismo conceitual se transforma em uma dicotomia existencial geradora de luta permanente.”
“Torna-se cada vez mais evidente que muitas das dificuldades e conflitos existentes hoje em dia na sociedade se devem a um enfoque parcial dos problemas humanos.”
“O desenvolvimento da razão não somente originou um tipo de pensamento que analisa e divide a realidade, mas que, ao converter-se de meio em fim, dividiu a própria vida e criou um tipo humano dividido, especializado em alguma de suas funções vitais.
“Para que se possa compreender, ainda que superficialmente, as crises em escala mundial, devemos dar-nos conta de que o ciclo do que poderíamos chamar civilização racional se baseia fundamentalmente no princípio de uma dinâmica de pares de opostos e de desenvolvimento de aspectos parciais da realidade. Essa civilização que conhecemos resultou em diversos campos da atividade humana, o conhecimento e desenvolvimento das partes, mas perdeu de vista o todo. A ciência, a filosofia, a biologia, a economia, a política, tudo está sob o signo da dualidade e da luta dos opostos. Na medicina, por exemplo, através do estudo dos órgãos e funções isoladas, procurava-–se compreender o funcionamento do organismo, mas o organismo é uma totalidade biológica que não pode ser compreendida pela soma de suas partes constitutivas. O mesmo acontece na sociedade humana. As raças e os povos desenvolvem suas culturas parciais, entram em conflito uns com os outros e, em seguida, tentam reunir-se em federações, mercados comuns, sociedades de nações, com o objetivo de alcançar a unidade, mas, enquanto os homens se guiarem pela diretriz da separatividade, tal ideal será impossível de atingir.”
“O novo estado de consciência que caracterizamos como de síntese e de integração tem tomado formas expressivas em muitos homens de ciência, filósofos de almas simples, dando nascimento, em seus respectivos campos de influência, a correntes renovadoras animadas do mesmo espírito de unidade e integralidade.”
“Aos clássicos métodos de conhecimento racional por dedução e indução, devemos agregar, agora, um novo método que podemos chamar profético e que, devidamente aperfeiçoado, poderá constituir um perfeito radar da ciência e da filosofia do futuro.”
“A identificação do homem com os valores da cultura e a tendência para a atividade exterior, vêm criando um tipo de “homo socialis” que trata de se adaptar ao ambiente e estabelecer corretas relações no plano da convivência, transformando-se em perfeita engrenagem dentro da organização social, ou em um meio para fins sociais. É um homem em função de algo exterior a si mesmo. A sociedade lança ao individuo um desafio profundo: onde ficou sua vida privada?.”
“À medida que a humanidade vai cobrindo a Terra com o seu acelerado crescimento demográfico e paralelamente ao processo de organização social, o individuo se encontra cada vez mais comprometido nas malhas da vida coletiva e tem a impressão de ir perdendo sua liberdade. Enquanto o ser permanecia separado dos demais por grandes distâncias e a vida de certos grupos era totalmente desconhecida para outros, a existência se desenvolvia sob um sentir profundo de liberdade exterior, seja real ou ideal. Mas, ao comprimirem-se as partículas humanas por aumento de número por aglomeração nas grandes cidades, com interferência recíproca de seus campos através das comunicações, diminui a liberdade exterior em razão dessa mesma proximidade.”
“No estado atual de desenvolvimento da comunidade, estamos chegando a um ponto critico do gozo da liberdade exterior; neste ponto de inflexão, o desenvolvimento exterior,
tanto individual como coletivo, se faz interior e o anseio de conquistar uma liberdade no exterior se transmuta em uma busca de liberdade interior.”
“Uma das grandes dificuldades do homem é o controle de seus pensamentos, dificuldade que se vê agravada na atualidade pela incessante atividade mental, fruto da era moderna.”
“O silêncio é um valor de integração que torna possível a união do humano com o divino. O Silêncio é o verdadeiro campo de estabilidade do homem individual, o que lhe permite mover- se no torvelinho da vida exterior sem ser por ele arrastado, o que faz possível conviver com as mais diversas formas e expressões da vida sem com elas identificar-se e o que lhe permite conservar, em definitivo, sua própria individualidade.”
“Sem Silêncio não é possível falar de intimidade real, nem de individualidade, nem de liberdade interior.”
“O homem que é capaz de calar o coração, que não se identifica com as paixões próprias ou alheias, que não se constitui juiz das ideias ou das ações dos demais, pode unir-se, por silêncio de amor, com seus semelhantes, e adquire uma nova força espiritual própria, capaz de resistir às poderosas forças que agitam a vida material do mundo.”
“Considerando–se as características da vida do homem na sociedade moderna, seu afastamento da natureza, a ignorância das leis cósmicas e as necessidades que tem o individuo de um encontro consigo mesmo e de liberar suas próprias energias na conquista de seus valores reais, tudo faz pensar que a ascética mais adequada para estes tempos deve fundar-se sobre as seguintes bases: um método de vida, de controle mental e de reserva de energias.”
“O desenvolvimento integral do homem abarca todos os aspectos do ser, e a harmonia do ritmo de sua vida individual com a vida do universo é condição básica daquela harmonia de valores humanos e divinos que se pretende alcançar quando se fala de unidade e integralidade de vida.
Muitos problemas da vida humana, encarados até agora de um ponto de vista antropocêntrico, só poderão ser compreendidos do ponto de vista cosmogônico.”
“O ajuste perfeito do individuo às leis biológicas e cósmicas, e a distribuição harmônica de atividade e passividade no ciclo das 24 horas do dia, constitui o marco de estabilidade exterior necessária para cultivar a vida interior.”
“A oração e a meditação, à parte seu valor espiritual como exercício ascético-místico, aquietam o lago da mente, clarificam e ordenam as ideias, discriminam o que é próprio do ser daquilo que é reflexo das opiniões alheias e ajudam a pensar de modo individual e desapaixonado.”
“O homem moderno necessita conquistar um silencio mental que situe seu instrumento de pensamento dentro de uma hierarquia de funções na totalidade do ser, evitando que a razão se constitua como um poder autônomo, tirânico, gerador de contradições, finalmente, destruidor daquela individualidade expansiva e participante que se quer idealmente alcançar.”
“O instrumento mental deve ser conhecido pelo homem através de um controle de si mesmo, que é uma continua observação objetiva do fluir de sua mente, até que conheça seus pensamentos, sua origem e suas motivações. Somente assim poderá quebrar a identificação entre seu ser e seu fluxo mental, uma barreira difícil, mas não impossível, de ser rompida em seu caminho de liberação interior.”
“Há uma atitude existencial básica, que é a que define as possibilidades de se alcançar ou não o controle da própria vida, mergulhada em um mar de inseguranças e perigos. Se essa atitude básica se assenta exclusivamente em valores transitórios, sejam materiais, emocionais ou intelectuais, e na segurança que estes valores proporcionam ao homem, ela será consequentemente acompanhada da presença ameaçante do temor de perder tais pontos de estabilidade.”
“Quando o centro de gravitação da vida humana se desloca dos valores transitórios para os valores transcendentes e permanentes da existência, é possível enfrentar as inseguranças existenciais e o medo com uma nova atitude.”
“Somente uma visão da totalidade que contemple todos os aspectos da vida humana, tanto material como espiritual, pode satisfazer as aspirações do homem de se desenvolver em um nível humano autêntico e alcançar a plenitude de seu desenvolvimento.”
“A liberação do individuo se realiza na consumação de sua existência. Chegar ao fim de tudo que se tenha começado, eis aí a possibilidade de consumar a experiência humana. De nada valem os mais altos ideais se não se termina o que se começa. O inconcluso, por mais razões que se encontrem para justificá– lo, deixa na alma não somente a amargura do fracasso, mas também um resíduo de energia não utilizada, que é fonte de dor material.”
O SR. EGOÊNCIA
RAMÓN PASCUAL MUÑOZ SOLER
Ramon Pascual Muñoz Soler nasceu em Moldes (Córdoba) Argentina, em 19 de junho de 1919. Doutor en Medicina pela Universidad Nacional de Rosario, Argentina (1945/53) e Médico Psiquiatra pela Universidad de Buenos Aires (1958). Fundador do Centro de Estudos de Medicina Psicosomática do Hospital Nacional del Centenario, Rosario, Argentina (1946) e de vários Serviços de Psicopatología e Clínica Psicosomática em Hospitais Gerais da cidade de Buenos Aires. Foi chefe de Saúde Mental na “Dirección General de Sanidad Escolar” do Ministério da Educação e Professor de Psicologia Médica em Cursos de Aperfeiçoamento para Médicos. Ministrou inúmeras Conferências Públicas sobre temas sociológicos, educacionais, antropológicos e espirituais e teve trabalhos apresentados em congressos científicos. Colaborou com artigos para diversos livros e revistas. Desde muito jovem, antes de seu ingresso na Medicina, se interessou pela História e pelas Ciências da Alma. Aos 11 anos escreveu seu primero livro (manuscrito, inédito) que chamou “Grandeza de Alma”. Explorou diversos caminhos espirituais, tratando de encontrar a “ligação” entre a tradição mística e a teoria da ciência. Foi um dos primeiros companheiros espirituais e discípulo de Santiago Bovisio, fundador de Cafh.



