Você conhece, lembra, a canção “Sinal fechado” de Paulinho da Viola*?
A letra narra um diálogo rápido, entrecortado, entre duas pessoas, enquanto aguardam o sinal abrir.
Tudo muito apressado.
– Olá como vai?
__ Eu vou indo e você, tudo bem?
….e segue, cada um falando de seus objetivos e necessidades mais imediatas
– me perdoe a pressa, ……pegar meu lugar no futuro…quanto tempo, pois é quanto tempo…..
Quantas vezes realmente paramos para conversar, escutar, para cultivar a arte de conhecer e interessar-se pelo outro?
Nessa vida agitada, agenda cheia, redes sociais, inteligência artificial, etecetera, parece que não está sobrando muito tempo para a arte da conversa, da troca de ideias e de significados.
Os vizinhos, no passado, cultivavam a conversa, o diálogo, colocando as cadeiras na calçada, e ali, ficavam horas. Hoje em dia isso é mais difícil, no entanto, percebo outras possibilidades e quem sabe praticar alguns hábitos que podem nos ajudar na técnica desse cultivo. Vamos explorar alguns deles.
O primeiro poderia ser:
Calar e escutar
O calar tem ao menos duas dimensões. Uma exterior, fechar a boca, não falar nada. Talvez essa seja a mais fácil. Basta não falar.
No entanto… O que ocorre se simplesmente não falarmos? Não sei você, mas a minha experiência é que há um jorro interior de pensamentos, angústias, raiva, de tudo.
Entramos então na segunda dimensão. Calar nosso interior.
Observar esse movimento em nós é o primeiro passo. Analisar o que nos surge, que tipo de ideias, que sentimentos. Parar, calar essa voz, esse movimento interior.
Escutar nossa consciência, nossos valores mais íntimos. Escutar a nós mesmos, refletir sobre tudo isso e tomar decisões conscientes sobre o sentimento que se quer alimentar, que se quer expressar.
Com isso podemos promover um diálogo sadio, olhando para nós e para o outro, escutando e validando os demais de forma ativa.
Validar o outro
O outro existe. Está.
Validar o outro implica saber e agir com essa realidade em mente.
Não é concordar com tudo e com todos, mas sim, entender que o outro expressa suas próprias ideias, conceitos e preconceitos, de acordo com a interpretação que faz da realidade, de acordo com as suas próprias necessidades.
E nós também.
Escutar e validar a vida, os demais, é uma atitude que ajuda no diálogo.
Escutar querendo compreender o ponto de vista do outro, de onde olha e porque pensa assim.
Conhecer quais são as bases sobre as quais se assentam essas opiniões e ideias.
Fazer perguntas para compreender e aprofundar o tema.
E, isso, também pode ser uma prática nossa para ajudar no diálogo.
Outro hábito poderia ser:
Falar desde si mesmo
Eu entendo que é diferente falar de si mesmo e falar desde si mesmo.
Falar de si mesmo é falar do que lhe ocorre, do que gosta ou não gosta.
Falar desde si mesmo implica incluir-se na questão, como parte do problema e da solução.
Principalmente, oferecer, no diálogo, os fundamentos sobre os quais se assenta sua ideia, sua opinião.
É um fato, então, demonstre com evidências.
Se é uma opinião, deixe claro que é a forma como você percebe a realidade, o porquê a percebe assim e o tipo de informação, critério, que valor a alimenta.
Uma vez mais, é uma opinião. Os outros podem ver e perceber diferente.
Diálogo implica em significados em movimento, expressamos ou tentamos expressar com palavras o que sentimos e que significado damos ao que sentimos e vivemos. Ao expressar esses significados damos aos outros a oportunidade de nos compreender e ao mesmo tempo de compreender.
Este movimento nos pode ajudar a não julgar, a abrir novas possibilidades, a mudar de opinião, a ampliar nosso estado de consciência. A incluir.
Vamos praticar o diálogo em sua essência; compreensão do movimento dos significados.
*Paulinho da Viola – Paulo César Batista de Faria, mais conhecido como Paulinho da Viola, é um produtor musical, violonista, cavaquinista, bandolinista, cantor e compositor de samba e choro brasileiro



