“Embora a palavra amor esteja em todos os lábios, seja pronunciada em todos os idiomas e expressa de todas as formas, muito poucos saberiam dar uma definição exata do amor. Para muitos, o amor não tem definição, pois é a Essência Divina da vida.” (O Amor Real – 11ª Ensinança – Desenvolvimento Espiritual)
Como o amor se manifesta em tudo o que está a minha volta? Como aprendo de forma mais amorosa com a minha relação com as pessoas, com as plantas, com os animais, com tudo que está ao meu redor?
Quando nos permitimos ampliar nossa visão e valorizar de forma amorosa tudo o que está ao nosso redor, acho que conseguimos perceber o mundo com outros olhos. Observando meus bichinhos de estimação aprendi muito sobre o que é o amor e como vivenciá-lo a cada instante em nossas vidas.
Mimi, a rainha
A primeira vez que senti uma forte afinidade com os animais foi com a Mimi, uma gatinha siamesa, que chegou a nossa casa e me escolheu como amigo, em meio aos vários familiares. Na época, eu não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo, era uma conexão muito além do racional, um amor real, se posso chamar assim. Depois, vim a acreditar que ela era quem “cuidava da casa”…
No meio dessa vivência passaram outros fiéis amigos e amigas, e cada um escolhendo sua melhor companhia, aquela que fazia sentido durante suas pequenas e curtas vidas. Mimi reinava soberana até a chegada de Aragorn, um pastor alemão de índole super amorosa, cujo nome é uma homenagem ao grande guerreiro da saga o Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien. Apesar da dedicação constante ao cão devido a alguns problemas de pele, Mimi mantinha uma convivência tranquila, pois era ela quem mandava na casa.
Aragorn, o lord
Mas foi com o Aragorn que a relação de troca se aprofundou ao desconhecido. A dedicação nos cuidados dele viraram momentos de descontração e um amor de profundo carinho. A dependência era mútua, toda vez que eu precisava viajar por um dia que fosse, nós dois sentíamos, e ele chegava a ficar sem comer.
Fomos vivendo essa amizade, um acompanhando o outro. Nos momentos que estávamos a sós, passeando, por alguma rua mais deserta, eu o soltava da coleira e, ao invés de sair correndo, ele ficava ali parado do meu lado. Ele sabia que podia correr e brincar, mas parecia que para ele só havia graça se nós dois corrêssemos juntos. O tempo foi passando e ele não conseguia mais passear, mas isso não impedia nossas brincadeiras e a alegria de compartilharmos nosso tempo.
Dexter, o invocado
Quando o Aragorn tinha 5 anos ele ganhou um amiguinho, o yorkshire Dexter, e logo de cara eles viraram amigos. Brincavam e dormiam juntos. Mas ainda pequeno, Dexter sofreu alguns acidentes, e passou a demandar uma dedicação especial. Contudo, sua condição física nunca o impediu de ser o mandão da casa. Nos passeios, ele tinha que ir à frente da “matilha” (Aragorn e nós). Quando estava na garagem de casa, sabia que poderia esbravejar com qualquer pessoa que passasse por perto, pois tinha um pastor alemão do lado, na retaguarda para defendê-lo. O que ninguém de fora sabia era que o Aragorn, seu “defensor”, era muito manso e dócil.
Vivemos ótimos momentos juntos, brincamos, passeamos, viajamos e choramos. Quando o Aragorn partiu, repentinamente, nos pegou a todos de surpresa e o pequeno Dexter, assim como nós, também ficou deprimido por um bom tempo.
Kiko, o conciliador
A nossa quarta fofura, uma bolinha de pelo branco, era o Kiko, um coelho super dócil. Para nós o ingresso do novo integrante foi tranquilo, mas para o Dexter não foi fácil, ele sentia seu espaço sendo invadido e teve várias cenas de ciúme. Mas o Kiko tirou de letra e mostrava o tempo todo o quão real era o amadurecimento desse amor.
O tempo foi passando e houve vários momentos maravilhosos. Até que precisamos mudar de moradia. Saímos de um lugar onde havia frio e calor durante o ano, para uma região onde faz calor o ano todo. Foi difícil no começo, mas conseguimos juntos nos adaptar a essa nova realidade. Afinal, onde tem amor, tem harmonia.
O avanço da idade pode trazer limitações e necessidade de cuidados especiais aos humanos, como também, aos bichinhos. Cuidar da saúde dos nossos amiguinhos de estimação nunca foi um peso, pelo contrário, trouxe-nos grandes aprendizados.
Bingo, o sábio
Certa vez apareceu em nossa rua um cachorro bem velhinho. Como ele havia chegado ali? Não sabemos dizer. Mas, não podíamos abandoná-lo à própria sorte. Assim, em comum acordo com algumas amigas vizinhas, começamos a cuidar dele coletivamente, até que decidimos adotar o velhinho e trazê-lo para nossa casa.
Descobrimos que o nome dele era Bingo e que fora abandonado depois que seu tutor faleceu. Quando o adotamos, ele já tinha uns 17 anos, mas era muito inteligente e gentil. Obviamente, o Dexter, que já não era nenhum menino, ficou cismado e meio enciumado novamente, mas o Bingo tirou de letra e nos ensinou o que é ter paciência e que podemos aprender, ser gentis e gratos por tudo que aparece na vida. Cuidamos dele até os seus 19 anos.
Zoe, afeto em forma de fofura
Um dia, quando estávamos chegando em casa, escutamos um miado vindo da árvore que ficava em frente do portão. A autora do miado era uma linda gatinha de olhos azuis. Ela estava bem magrinha, alguém a abandonara ali. Colocamos a gatinha para dentro de casa, realizamos os primeiros cuidados e “tentamos” doá-la. Penso que entenderam o uso das aspas, não é? Na verdade, fizemos pouquíssimo esforço para que a doação acontecesse porque o amor já havia nos unido.
Então, ela foi ficando, foi ficando e tornou-se a nova integrante da família. Passamos a chamá-la de Zoe. Ela, rapidamente, conquistou o Dexter e o Kiko. Creio que tenha sido por sua docilidade, companheirismo e capacidade de distribuir seu afeto, igualmente a cada um de nós.
Meses depois da chegada da Zoe, alguém deixou uma caixa com um gatinho bem pequeno do lado do portão. Pensamos: “Alguém que passar vai pegá-lo. Vamos deixá-lo aí e esperar o que acontece”. Quando anoiteceu, começou a chover. O gatinho ainda continuava no mesmo lugar. Sabe o que fizemos? Nós o acolhemos, e ele estava bem fraquinho. Achamos que não passaria daquela noite. Mas não é que o bichano, assim que se viu cercado de mimos e cuidados, começou a melhorar? O amor em forma de cuidado é assim, cura.
Last but not least, Frajola
Como sabíamos que não seria possível colocá-lo para adoção devido a alguns probleminhas de saúde, ficamos com ele e o batizamos com o nome de Frajola.
Frajola se enturmou rapidamente com a Zoe, mas com o Dexter e o Kiko teve um pouco de dificuldade, talvez por todos serem machos, mas acabou por conquistar seu espaço no coração de todos.
Despedidas
Passados alguns anos, Kiko partiu repentinamente, deixando-nos surpresos porque aparentava estar muito bem de saúde. Não sabemos exatamente o que aconteceu. Dexter pareceu não ter sentido tanto a ausência do Kiko. Zoe procurou seu amigo por um tempinho… E o Frajola seguiu a vida.
Tempos depois foi a vez de Dexter, que aos 16 anos começou a enfraquecer a cada dia. Como nossa jornada foi sempre intensa, desta vez pareceu que não conseguiríamos aceitar que o amanhã estava chegando para o nosso grande amigo. O Dexter partiu, mas até seu último suspiro ele tentou nos acompanhar, e nos mostrou que não há limites para o amor.
Todos sentimos essa partida. O Frajola ficou com um pouco de receio de ir ao quintal e a Zoe, que sempre estava por perto do Dexter e, por vezes, o ajudava por causa de suas limitações visuais, sentiu intensamente a ausência do amigo. Essa falta nos trouxe um vazio e uma dor pungente em nossos corações, e também a pergunta: qual seria a nossa função na vida senão aprender a aprender sempre? E como aprendemos a amar?
Talvez seja vivendo intensamente o presente; aprendendo com cada situação que a vida vai nos presenteando; desfrutando de cada momento, espaço, passeio, brincadeira, soneca, viagem; compreendendo cada perda; amando indiscriminadamente, como o fazem nossos amigos de estimação.
Amor eterno
Não sabemos o que nos aguarda o dia de amanhã, mas temos certeza de que o amor que cultivamos pelos nossos amigos de estimação estará sempre aceso em nossos corações, mesmo com a ausência eterna. É um amor gigante, verdadeiro, alegre, grato, tranquilo e capaz de fazer o coração transbordar de felicidade.
Talvez nós, os humanos, tenhamos que ser mais humildes e aprender com a natureza a silenciar a mente para abrir o coração.
Andres De La Via



