O processo de desenvolvimento espiritual não necessariamente começa com grandes decisões nem com fortes mudanças visíveis externamente.
Na maioria das vezes, pode começar com gestos interiores, simples e constantes.
Na adoção de pequenos hábitos. Na simplicidade de cada um, podemos realizar muito.
Por exemplo, podemos iniciar nosso dia escolhendo um bom pensamento.
Um pensamento de bem, seguido de outro, e depois de mais um, e mais um, vão criando uma disposição interior que orienta nossa maneira de viver.
Quando esse pensamento também se expressa em uma palavra, uma oração, um gesto, se torna mais claro, mais presente e mais fácil de sustentar ao longo das horas.
É comum nas tradições espirituais, repetir mentalmente orações curtas, exemplo, repetir o nome de Jesus Cristo, ou Divina Mãe, quando se caminha, quando se realiza algum trabalho manual, ou outra atividade.
Para quem não é religioso, quem sabe, faria bem repetir, palavras como saúde, alegria, paz, amor, sucesso, harmonia…
Não há que parar para realizar e nem há uma forma rígida para essa prática. Pode ser integrada de maneira natural aos diferentes ritmos do dia. Alguns exemplos:
• ao despertar, antes de iniciar as atividades;
• ao começar uma tarefa;
• durante deslocamentos ou pausas breves;
• diante de situações que exigem paciência ou discernimento.
A repetição pode ser mental, suave, sem esforço. O importante é a qualidade da atenção com que a palavra é evocada.
Uma única repetição consciente pode ser mais significativa do que muitas feitas de modo automático.
Escolha uma palavra, comece agora mesmo.
Outra prática que pode ajudar no autoconhecimento é o exercício do ato contrário.
Muito simples de entender, mas nem sempre fácil de realizar. É preciso uma atenção a nossos sentimentos, nossos pensamentos e principalmente nossos impulsos.
O exercício do ato contrário consiste em, quando percebemos um impulso, uma vontade, realizar, conscientemente, o contrário.
Por exemplo, se vamos pela rua, faz muito calor, sentimos aquele impulso de tomar um sorvete, caminhamos até a loja, no momento da compra, desistimos. Por um ato consciente, dizemos a nós mesmos – não, agora não. E seguimos.
O hábito desse exercício, como dito, nos ajuda a conhecer melhor a nós mesmos, saber o que nos toca, o que nos faz sofrer, como ter autocontrole.
Uma amiga, certa vez contou, que como mãe de um menino, naquele momento com quatro anos de idade, atarefada, como todas as mães, viu-se muito impaciente com uma atitude bem rebelde do menino, que não queria se levantar do chão. Ela correu para ele, num impulso, pronta para dar umas palmadas.
Quando chegou, buscou forças no mais profundo de seu ser, abaixou -se e abraçou o filho com todo amor.
Conta para mim – não é uma experiência transformadora?
Um terceiro exercício é o de não creditar intencionalidade às pessoas e a vida.
A experiência nos mostra que a tendência do ser humano é a de gerar uma intenção ao outro, principalmente quando as respostas não estão em acordo com o que esperamos, ou quando alguém faz um comentário ou toma uma atitude.
Logo pensamos – está dizendo isso por causa daquilo. Não é verdade?
Quando mantemos essa atitude os pensamentos ficam rodando, começamos a criar respostas mentais, quase sempre em desagrado ao outro ou ainda a própria vida.
Lembro de um conto com uma passagem, mais ou menos assim. Uma pessoa precisa de uma ferramenta e decide pedir emprestado ao vizinho. No trajeto até a casa do vizinho, foi pensando mentalmente – ele não vai emprestar, nunca empresta nada, não gosta de mim, principalmente para mim, não vai emprestar, e assim foi tecendo seu diálogo interior, estabelecendo intenção ao vizinho.
Chegou, tocou a campainha, quando o vizinho atendeu a porta foi logo dizendo, olha aqui, eu preciso dessa ferramenta, mas já sei que não vai me emprestar, portanto, fica aí, você com sua ferramenta, eu me viro. Virou as costas e se foi.
O vizinho – bem, não entendeu nada.
Quantas vezes já fizemos isso, de outras formas. Então, quando não entendemos a ação ou as palavras do outro, perguntemos, busquemos compreender os motivos, aprofundemos na prática do diálogo.
Isso vale também para as “respostas” da vida. Quando algo nos acontece e não entendemos os motivos, paremos, avaliemos nossas decisões, o que fizemos que nos trouxe até essa situação e atuemos em consequência com o que desejamos alcançar.
Na simplicidade e consciência de nossos hábitos, com gestos sustentados ao longo da vida, vamos criando a possibilidade de integrar a espiritualidade na vida diária.
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Sergio da Cruz



