Li um texto de Ana Cristina Flor, diretora espiritual de Cafh, que “sem autodeterminação não há Renúncia”. A ideia dessa afirmação apresenta uma correlação com a Teoria da Autodeterminação da Motivação (TAD), desenvolvida por Decy e Ryan (1985)1 . Essa teoria propõe que três necessidades psicológicas básicas são fundamentais para que a motivação floresça: autonomia, competência e vínculo.
A autonomia refere-se ao direito de sermos agentes das nossas escolhas. Ninguém deseja ser um mero executor de ordens alheias pois há em cada ser humano o anseio por viver com propósito e liberdade.
A competência, por sua vez, diz respeito à nossa necessidade de sentir que somos capazes, que temos valor e eficácia nas ações que empreendemos.
E o vínculo, por sua vez, expressa a nossa necessidade de conexão, amor e pertencimento.
Quando essas necessidades são respeitadas e cultivadas, é possível notar uma motivação mais autêntica nas pessoas, uma energia que não vem da obrigação, mas de um sentido interno.
Esses três pilares também ecoam em mitos e verdades sobre a Renúncia. Um ponto que me tocou foi a desconstrução de dois mitos: de que renunciar significa abrir mão de direitos fundamentais, e de que renunciar é o mesmo que se resignar passivamente. Mas, pelo contrário, a verdadeira renúncia reconhece e acolhe nossas necessidades básicas, mas não nos prende a elas. Ela não é submissão ou fraqueza, mas uma forma elevada de liberdade e lucidez.
A renúncia não é o fim de um processo, mas um modo de caminhar. Estamos em constante transformação: nossos pensamentos, sentimentos e percepções mudam. Quando somos honestos conosco, compreendemos que não há um ponto final — e isso não deve nos desanimar. Pelo contrário, é esse movimento contínuo que nos dá sentido e liberdade interior.
A partir desse entendimento, vi como a autodeterminação se fortalece quando passamos a reconhecer o que nos move. Muitas vezes achamos que não temos vontade ou energia, mas, ao nos conectarmos com o que é essencial, a motivação retorna — e não porque alguém nos impôs algo, mas porque escolhemos agir com consciência.
Ter autodeterminação não significa isolamento ou autossuficiência arrogante. Pelo contrário, é justamente quando reconhecemos que precisamos uns dos outros — e que pertencemos a uma rede de relações — que nossa ação se torna mais humana e mais espiritual. Compreendemos o que é a interdependência.
Por fim, a ação desinteressada, ou “ato puro”, aparece como culminância desse processo. Agir pelo valor da ação em si, sem apego aos resultados ou à aprovação externa, é talvez uma das formas mais libertadoras de viver. A motivação aqui não é extrínseca, não vem de recompensas, mas do prazer profundo de estar inteiro no que se faz.
Portanto, entre a teoria psicológica da autodeterminação e a mística da renúncia, encontrei um ponto de convergência: ambas nos convidam a viver de forma mais consciente, mais plena e mais verdadeira.
1RYAN, R. N. e DECY, E. L. Self Determination Theory, Guilford Publications, New York, 2017.
Mayra Guedes



