A agenda aberta na tela do computador, mostrava o que havia sido uma semana de energia dedicada a planejar o evento que duraria todo aquele dia. Aqueles blocos coloridos que preenchiam a tela eram mais do que simples agendamentos; eram as rédeas com as quais ele acreditava dominar o próprio destino. Havia preparado cinco blocos de temas e de trabalho para aquele dia.
Estava tudo sob controle. Cada bloco possuía um responsável e um propósito bem definidos.
No entanto, o controle revelou-se uma ilusão.
— Mas se não voltarmos atrás um pouco e entender exatamente o problema que aconteceu antes, não adianta iniciar um novo tema — disparou um dos participantes. O diálogo iniciou sobre isso e o tempo foi passando.
Sentiu um nó na garganta. “Não, esse não é o tema de hoje. Se entrarmos nisso agora, o dia inteiro vai desmoronar, a agenda não vai se cumprir”, pensou, o olhar meio vago, como procurando um ponto para fixar-se.
Ele tentou intervir, respirando fundo antes de falar: — Pessoal, podemos armar um comitê para estudar este tema e focar no…
Sua voz foi gentilmente atropelada por outro colega, que engatou num desabafo longo, sobre as dificuldades e restrições que ocorreram no passado.
O relógio continuava a correr.
O segundo bloco do dia, foi engolido sem qualquer pudor pelo atraso do tema estranho ao da agenda. A pauta meticulosa, construída com tanto zelo, não passou de uma sugestão completamente ignorada pelo caos das interações humanas.
Sentiu o peito apertar com uma irritação que já lhe era familiar. Aquela que surge quando sentimos nossa impotência frente a uma situação. Fechou o notebook. O baque seco do plástico ecoou pela sala vazia. Ele precisava sair dali. Sua mente iria implodir.
Decidiu caminhar ao ar livre.
Ao cruzar a porta giratória de vidro do saguão, o plano inicial era simples: usar a caminhada rápida para queimar a adrenalina da frustração.
A andava a passos largos, quase marchando, com os punhos cerrados dentro dos bolsos da calça.
Em sua mente, um movimento infinito de diálogos fictícios se repetia: “Eu deveria ter sido mais firme. Eu deveria ter cortado a fala dele logo no início. Por que as pessoas não respeitam o tempo das outras?” Estava fisicamente na calçada, mas sua mente continuava trancada naquela sala de reunião.
Chegou ao portão de um parque. Notou, imediatamente, outra atmosfera. O ritmo ali dentro era diferente do ambiente em que estava. Uma mulher empurrava um carrinho de bebê com uma lentidão que parecia desafiar as leis da produtividade. Do resultado. O vento soprava pelas copas das árvores, fazendo as folhas como que conversarem entre si, de modo calmo, inclusivo.
O contraste era quase agressivo para quem acabara de sair de uma “panela de pressão”.
Então, foi desacelerando. O cimento da calçada se transformou em um caminho de terra batida e folhas secas. O cheiro de terra úmida começou a preencher o espaço.
Ele parou e, por reflexo, olhou para baixo. Lá estava ela: sua própria sombra, nitidamente projetada no chão.
A sombra parou também. Ela se alongava, se inclinava, desenhando sua silhueta na terra. Ele deu um passo para o lado; a sombra o acompanhou.
Ao olhar para cima, por entre as frestas das folhas das árvores, percebeu o óbvio que a rotina costuma esconder: o formato, o tamanho e a direção daquela imagem não dependiam de sua força de vontade.
A sombra não lutava para manter uma determinada forma. Ela não entrava em desespero quando uma nuvem passageira cobria o sol, querendo fazê-la quase desaparecer. Ela não criava uma agenda para protestar contra o entardecer, ou mesmo contra a noite que a iria dissolver completamente.
A sombra apenas respondia, em harmonia e zero resistência, ao movimento natural e grandioso do sol.
“Ela muda porque o mundo muda”, ele se deu conta, em um estalo que ecoou dentro de sua cabeça. “Ela não tenta controlar a luz. Ela apenas flui com ela.”
Então, olhou para as próprias mãos, que haviam relaxado dentro dos bolsos. O problema real que o esmagava todos os dias não eram as reuniões que passavam do horário, as mudanças ou os imprevistos da rotina.
O problema era a sua necessidade de ter controle sobre tudo. Que tudo e todos funcionassem como um relógio suíço, esquecendo-se de que a vida se parece muito mais com as nuvens que se moldavam lá no alto.
Olhou as horas. Os números que antes pareciam mais como um cronômetro em uma corrida, agora, lhe indicavam apenas uma referência, um momento.
Sorriu de canto, respirou o ar puro do parque uma última vez e deu meia-volta.
Voltaria para a sua mesa, abriria o notebook. Sabia que a agenda do dia seguinte provavelmente falharia de novo. Mas, desta vez, ele não tentaria brigar com o Sol. Como a própria sombra, começaria a aprender a sutil e libertadora arte de redesenhar os próprios contornos e aceitar o fluxo vivo de cada momento.
E você, quantas vezes já percebeu que nem tudo sai como planejado? Você costuma lutar contra os imprevistos do dia ou já aprendeu a fluir com eles como a sombra?
Entre em contato com a gente. Vamos conversar sobre a ilusão do controle em nossas vidas.
Sergio da Cruz


