A capacidade de representação através do símbolo é algo que diferencia a pessoa humana dos outros animais. Contudo, nem sempre a compreensão de alguns termos ocorre no instante em que nos deparamos com eles da primeira vez.
Vou tomar como exemplo, para esclarecer essa ideia a palavra “incondicional”, que apresenta, dentre outros, os seguintes significados: “Que não se sujeita nem se limita; irrestrito. Que não está suscetível às condições ou circunstâncias externas. Que não pode ser restringido ou limitado”. Parece fácil, óbvia, lógica a definição, mas penso que a relação do significado com a compreensão emocional do conceito de incondicionalidade pode não ser tão direta.
Vivenciei isso de perto quando compreendi uma máxima bastante propalada em nossa cultura: o amor materno é “incondicional”. O que minha mente lógico-matemática compreendia tão bem, só acendeu a chama da compreensão do meu coração, já adulta, quando li o livro “Mamãe, você me ama ?
Sim. Esse livro constrói a narrativa a partir de um diálogo entre uma menina pequenina e a mãe. Nessa conversa, a garota apresenta de forma hipotética várias situações. Essas situações provocam, também hipoteticamente, sentimentos variados na mãe. Após a descrição imagética de cada situação elaborada para provocar a mãe, a menina indaga se a mãe a amaria, após ter vivido aquela situação de forma imaginária. A mãe responde que, apesar de ter experimentado um sentimento negativo (raiva, tristeza, decepção), a ama, demonstrando que o amor transmuta e transcende qualquer sentimento.
O livro, direcionado a crianças, mostrou-me o que é a incondicionalidade do amor maternal. Algo que eu aprendera, racionalmente, em atividades da minha infância na escola e na igreja, caiu-me no coração como a semente em solo fértil, ao receber as primeiras gotas de água. Essa nova dimensão do conceito, mudou a minha maneira de ser mãe e de ser filha. Abriu-me as portas do coração para a relação maternal e filial. Muitas atitudes e sentimentos que dificultavam o relacionamento com minha mãe e meus filhos foram clareados e tornou-se mais fácil de sentir e de me libertar de culpas, ressentimentos, frustrações e expectativas.
E como esse “dar-se conta” ganhou vida em relação ao conceito da “Grande Corrente”?
Aprendi, quando ingressei em Cafh, no início da década de 1990, que a Grande Corrente é “a conjunção da força dos Mestres que projetam a Idéia Mãe sobre a humanidade com a força da intenção, dos pensamentos e dos sentimentos que os seres humanos geramos para realizar nossos propósitos” . Durante anos, repeti, maquinalmente, esse conceito, até que revendo um filme que já tinha visto muitas vezes, “a ficha caiu”, me dei conta do que isso representava, compreendi com o coração!
O filme a que me refiro é “Procurando Nemo” que conta a história de um peixe-palhaço, Nemo, que se perde da família ao aventurar-se por águas “proibidas”. O pai de Nemo procura, desesperadamente, o filho que está perdido em alguma parte do oceano. Esse pai empenha todos os esforços para realizar essa busca.
O trecho do filme, especificamente, que provocou a minha tomada de consciência, foi o momento em que a personagem Crush, uma tartaruga com muitos anos de vida e muita experiência de atravessar o oceano, encontra o pai de Nemo, desfalecido. Ele o desperta, tranquiliza-o e explica que a Corrente Leste Australiana – CLA é o caminho certo para levá-lo ao objetivo que é encontrar o filho perdido . Encoraja-o e o guia nessa travessia até um lugar seguro e próximo ao seu destino.
Nesse instante, compreendi que os Grandes Mestres plasmaram uma Grande Corrente ao realizar o propósito de suas vidas que é a União Substancial com a Divina Mãe e que nós, ao despertarmos a nossa consciência para realizar o mesmo propósito de vida (unir-se integralmente ao divino), nos sintonizamos com a energia dessa corrente. Foram inúmeros Mestres, de caminhos diversos que deixaram seus ensinamentos, em forma de escrito, testemunhos, ao longo do tempo, para toda humanidade na realização da caminhada. E, agora, eu também, ao trilhar esse Caminho, recebo e distribuo energia para essa Grande Corrente.
De que forma?
A permanência nessa corrente, primeiramente, depende da minha vontade e do meu esforço em realizar um método de vida que contribua para esse fim. Depois, ao perseverar na realização dos exercícios de meditação, de oração, do exame retrospectivo, do estudo das ensinanças, mantenho minha mente e coração abertos à recepção do que é projetado pelos Grandes Mestres, é o canal por onde flui essa energia, esse fogo que incendeia o meu coração e expande o meu Amor.
Compreendi também que os momentos em que estou com cada companheiro de Caminho nas reuniões semanais, nos retiros, dão-me a certeza de estar caminhando na direção certa, de receber o apoio nos momentos difíceis. Que a amizade espiritual que forjamos nessa caminhada, fortalece-nos, em momentos de aridez, de incertezas, de dúvidas, de insandices.
Agora sei e sinto o que é fazer parte da Grande Corrente de Cafh que renova, diariamente, a certeza de que vou chegar ao meu destino: ao Cume, morada da Divina Mãe.
Jeanne Amália de Andrade
Autoria de Barbara M. Joosse, 1995, publicado pela Editora Book-Brinque.
Curso: A Obra de Cafh, Cena em que o pai de Nemo acorda na Corrente CLA e conversa com Crush: https://www.youtube.com/watch?v=uQfdiWJRF1Y



