Dia desses, em uma reunião de família, um primo levantou a seguinte questão – uma pessoa que sofre do Mal de Alzheimer tem livre-arbítrio?
Naquele momento não lhe foi dada muita atenção. Estávamos conversando sobre outros temas. Enfim, o assunto não continuou.
A questão ficou comigo. Minha resposta honesta – não sei.
Tenho uma opinião. A propósito, cabe um parêntesis para esclarecer o que entendo como opinião, uma ideia que pode não ser comprovada, que segue alguns fundamentos, que pode fazer sentido somente para quem opina, e não fazer nenhum sentido para os demais.
Tome, portanto, o que segue, como uma opinião, pode ser contestada, aceita ou descartada.
Minha opinião sobre se uma pessoa que sofre do Mal de Alzheimer tem livre-arbítrio é Não e Sim.
Livre-arbítrio e a perda de autonomia.
Se entendemos o livre-arbítrio como possibilidade ou capacidade de tomar as próprias decisões de forma deliberada, baseada nos valores e objetivos pessoais, parece claro que pessoas com Alzheimer, poderão ter essa capacidade comprometida, reduzindo a habilidade de tomar decisões conscientes e considerando as possíveis consequências.
No entanto, essa capacidade também pode ser considerada como reduzida em diferentes situações na vida, por exemplo, quando no trabalho o “chefe” nos pede para fazer algo com o qual não estamos muito de acordo, ou até a aceitação para fazer um trabalho extra, mesmo sem querer, num prazo bastante apertado pelo risco de perder o emprego. Nosso livre-arbítrio fica comprometido, nossa capacidade de escolha e nossa autonomia fica reduzida, muito embora possamos dizer não e arcar com a consequência do desemprego.
Assim, se poderia expor muitas outras possíveis situações, nas quais a capacidade de decidir fica comprometida. Num contexto mais amplo, há a sociedade e como essa influi nas decisões que se vai tomando ao longo da vida e se pode, com isso, refletir em como, de verdade, se exerce o livre-arbítrio.
A força da família, que muitas vezes impõe seu poderio como uma mão forte e não dá espaço para que seus membros façam as próprias escolhas, é o caso dos que se veem frente a ter que seguir a profissão ou o negócio dos pais, ou que são obrigados a cumprir com formalidades e tradições familiares, mesmo sem entender os motivos.
Nesse sentido, a ideia do livre-arbítrio como autonomia, liberdade de escolher estará sujeita as circunstâncias sejam elas relacionadas com nossa condição social, econômica ou, como no caso inicial, de saúde.
Livre-arbítrio na dimensão espiritual.
A tradição espiritual ou religiosa, considera e reconhece duas grandes forças ou leis que regem a vida do ser humano.
A lei de predestinação consecutiva, destino, e a lei arbitral de possibilidades, livre-arbítrio.
Nascemos em um determinado país, numa determinada cidade, numa determinada família, raça etc. Nascemos homem, nascemos mulher. Não controlamos isso, é nosso destino.
Principalmente, essa tradição considera que é nosso destino divino ser um ser humano, e como tal poder viver, desenvolver e expandir nosso estado de consciência, nosso poder de realizar e transformar o que vivemos.
Transformar o mundo em lugar melhor para todos. Alcançar um estado interior de união com tudo o que existe. O Todo.
O livre-arbítrio também é uma dádiva divina. Temos um destino – ser um ser humano –, e a possibilidade de escolher como queremos viver.
Para mim, faz sentido isso, porque implica que cada um é e deve fazer-se responsável pelas próprias escolhas, viver também as consequências dessas escolhas.
Uma analogia que pode ajudar é como a de uma estrada com várias faixas na mesma direção, todas vão para o mesmo lugar, no entanto o motorista pode escolher em qual faixa e em qual velocidade vai andar.
Nesse caso, a estrada é o destino e a escolha das faixas o livre-arbítrio.
Ambas as forças atuam no ser. Uma leva a cumprir seu destino divino como ser humano e a outra faz com que cada um assuma as consequências e senso de responsabilidade pelas ações escolhidas.
Muitas vezes pensamos e queremos fazer algo, ir por um determinado caminho, no entanto algo dentro de nós nos pergunta – será? Duvidamos de nós mesmos. Ou então, a razão indica uma determinada escolha, mas a “intuição” nos indica outra.
Para mim, são essas forças atuando.
Nesse sentido, o uso sábio do livre-arbítrio está em harmonizar a vontade pessoal com o destino divino.
São duas dimensões. Do Ter e do Ser.
Do Ter. Do exterior, da personalidade, da razão, alguém que sofre de Alzheimer pode dar a impressão da falta de liberdade, quando a mente está sob limitações.
Por outro lado, na dimensão do Ser, do espírito, o valor do ser humano não está apenas em suas escolhas racionais, mas em sua essência, que permanece digna, mesmo diante da doença e de qualquer outra circunstância.
Sergio da Cruz



