Cultivar terras

Cultivar terras alheias?

Todas as manhãs, um novo despertar, sem grandes mudanças! Saem das casas, como em todos os dias, as mesmas pessoas que devem cultivar ou cavar em terras alheias, mundos exteriores. Poucas são as pessoas que permanecem em suas casas, cultivando terras internas, cavando na horta de sua própria casa.

“Corre a mente do ser humano atrás do filão de ouro que o outro diz haver descoberto e gasta as suas reservas vitais na saltitante busca; tropeça, incauta, em ilusórias armadilhas e se recusa obstinadamente a cavar na horta de sua própria casa.” (Bovísio, Santiago, Desenvolvimento Espiritual, 1937)

Assim, a mente do ser humano torna-se olhos que olham para fora de si mesmo. Mentes com capacidades de planejar, construir belos edifícios, cultivar vidas, hortas, jardins em terras alheias. A mente do ser humano aprende, desde cedo, a avaliar o outro, o mundo, a viver fora de si mesmo. A mente do ser humano aprende a investir em um trabalho exterior intenso. Aprende a cultivar na horta da casa do outro ser humano.

E todas as noites, cansada, mas enamorada de si mesma, dos novos empreendimentos exteriores, a mente humana volta cansada para a sua própria casa. Cultivou exaustivamente em casas, terras alheias e cansada a mente humana dorme, pensando no trabalho do dia seguinte. Mesmo dormindo, continua sem parar, sem descansar, sem contemplar, sem se deter, sem viver o presente. E faz meditação para ter melhor desempenho, isto é, para melhor planejar, para melhor cultivar terras alheias e já conhecidas.

Aí sente o vazio interior de quem vive correndo sem parar um instante para viver, para aprender a “cavar na horta de sua própria casa.” Aprender a cultivar em si mesmo a vida interior, deixar nascer em seu próprio ser terras férteis.


marilda clareth


1 Santiago Bovísio, Fundador de Cafh

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